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TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL DA 6ª REGIÃO

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Apelação Cível Nº 0011734-38.2014.4.01.3800/MG

PROCESSO ORIGINÁRIO: Nº 0011734-38.2014.4.01.3800/MG

RELATORA: Desembargadora Federal SIMONE DOS SANTOS LEMOS FERNANDES

RELATÓRIO

Trata-se de apelação interposta pela Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes - DNIT contra a sentença que, ao julgar improcedente a ação de manutenção de posse ajuizada por L. R. R. e R. C. D. S. F., e procedente o pedido contraposto, declarou a inconstitucionalidade do art. 85, § 19, do CPC e, por arrastamento, dos arts. 27 a 36 da Lei n. 13.327/16, determinando que os honorários de sucumbência fossem destinados à União, por meio do Tesouro Nacional, vedada sua transferência aos procuradores públicos.

Nas razões recursais, o apelante alega, que os honorários constituem verba autônoma pertencente ao advogado, nos termos dos arts. 22 e 23 da Lei n. 8.906/94 e do art. 85, § 19, do CPC, e que, no âmbito da Advocacia Pública Federal, a matéria foi regulamentada pelos arts. 27 a 36 da Lei n. 13.327/16.

Defende a inexistência de incompatibilidade entre o recebimento dos honorários sucumbenciais e o regime remuneratório por subsídio, bem como a ausência dos vícios formais e materiais reconhecidos na sentença.

Requer, ao final, a reforma parcial da sentença, para que seja afastada a declaração incidental de inconstitucionalidade e reconhecido o direito dos advogados públicos federais à percepção dos honorários de sucumbência.

Não foram apresentadas contrarrazões.

É o relatório.

VOTO

Presentes os pressupostos de admissibilidade recursal, conheço da apelação.

A controvérsia recursal diz respeito à possibilidade de os advogados públicos federais receberem honorários advocatícios de sucumbência cumulativamente com o subsídio inerente ao exercício do cargo público e, consequentemente, à titularidade da verba honorária fixada na sentença.

O art. 85, § 19, do CPC, estabelece que os "advogados públicos perceberão honorários de sucumbência, nos termos da lei".

No âmbito federal, a matéria foi regulamentada pela Lei n. 13.327/16, cujo art. 29 dispõe que os honorários advocatícios de sucumbência das causas em que forem parte a União, as autarquias e as fundações públicas federais pertencem originariamente aos ocupantes dos cargos relacionados no art. 27 do mesmo diploma legal, entre os quais se encontram os Procuradores Federais.

A sentença recorrida afastou a incidência dessas normas por entender que o pagamento de honorários aos advogados públicos seria incompatível com o regime remuneratório por subsídio previsto no art. 39, § 4º, da Constituição Federal, além de violar os arts. 37, X e XI, e 61, § 1º, II, também da Constituição Federal.

A questão, contudo, foi posteriormente solucionada pelo Supremo Tribunal Federal no julgamento da ADI n. 4.941/AL, assentando que "o artigo 39, § 4º, da Constituição Federal, não constitui vedação absoluta de pagamento de outras verbas além do subsídio" (ADI n. 4.941/AL, Relator Ministro Teori Zavascki, Relator para o acórdão Ministro Luiz Fux, Tribunal Pleno, julgamento em 14/08/2019, DJe de 07/02/2020).

Na sequência, ao apreciar a ADI n. 6.053/DF, o Plenário do Supremo Tribunal Federal examinou especificamente a constitucionalidade da percepção de honorários de sucumbência pelos advogados públicos federais cumulativamente com o subsídio recebido em razão do exercício do cargo.

O julgado recebeu a seguinte ementa:  

CONSTITUCIONAL E ADMINISTRATIVO. INTERDEPENDÊNCIA E COMPLEMENTARIDADE DAS NORMAS CONSTITUCIONAIS PREVISTAS NOS ARTIGOS 37, CAPUT, XI, E 39, §§ 4º E 8º, E DAS PREVISÕES ESTABELECIDAS NO TÍTULO IV, CAPÍTULO IV, SEÇÕES II E IV, DO TEXTO CONSTITUCIONAL. POSSIBILIDADE DO RECEBIMENTO DE VERBA DE HONORÁRIOS DE SUCUMBÊNCIA POR ADVOGADOS PÚBLICOS CUMULADA COM SUBSÍDIO. NECESSIDADE DE ABSOLUTO RESPEITO AO TETO CONSTITUCIONAL DO FUNCIONALISMO PÚBLICO.

1. A natureza constitucional dos serviços prestados pelos advogados públicos possibilita o recebimento da verba de honorários sucumbenciais, nos termos da lei. A CORTE, recentemente, assentou que ‘o artigo 39, § 4º, da Constituição Federal, não constitui vedação absoluta de pagamento de outras verbas além do subsídio’ (ADI 4.941, Rel. Min. TEORI ZAVASCKI, Relator p/ acórdão Min. LUIZ FUX, DJe de 7/2/2020).

2. Nada obstante compatível com o regime de subsídio, sobretudo quando estruturado como um modelo de remuneração por performance, com vistas à eficiência do serviço público, a possibilidade de advogados públicos perceberem verbas honorárias sucumbenciais não afasta a incidência do teto remuneratório estabelecido pelo art. 37, XI, da Constituição Federal.

3. AÇÃO PARCIALMENTE PROCEDENTE.

(ADI n. 6.053/DF, Rel. Ministro Marco Aurélio, Rel. para o acórdão Ministro Alexandre de Moraes, Tribunal Pleno, julgamento em 22/06/2020, DJe de 30/07/2020.)

O Supremo Tribunal Federal reconheceu, portanto, que a percepção de honorários de sucumbência pelos advogados públicos é constitucional e compatível com o regime remuneratório por subsídio. Estabeleceu, entretanto, que a soma dos honorários com as demais parcelas remuneratórias deve observar o teto constitucional previsto no art. 37, XI, da Constituição Federal.

As decisões definitivas de mérito proferidas pelo Supremo Tribunal Federal em controle concentrado de constitucionalidade possuem eficácia contra todos e efeito vinculante, nos termos do art. 102, § 2º, da Constituição Federal, devendo ser observada pelos juízes e tribunais, conforme estabelece o art. 927, I, do CPC.

A orientação foi reafirmada na Recl. n. 65.774 AgR, na qual o Supremo Tribunal Federal reconheceu que os honorários pertencem aos advogados públicos e constituem verba autônoma, insuscetível de compensação com débitos do ente representado (Rcl. n. 65.774 AgR, Rel. Ministro Dias Toffoli, Segunda Turma, julgamento em 11/06/2024, DJe de 14/06/2024).

A sentença deve, assim, ser reformada no ponto em que declarou incidentalmente a inconstitucionalidade do art. 85, § 19, do CPC e dos arts. 27 a 36 da Lei n. 13.327/16 e determinou a destinação dos honorários ao Tesouro Nacional.

É caso de reconhecer que os honorários advocatícios de sucumbência fixados na sentença pertencem aos advogados públicos federais, devendo ser destinados e distribuídos na forma da Lei n. 13.327/16, observada, quanto à percepção individual, a incidência do teto remuneratório previsto no art. 37, XI, da Constituição Federal.

Apenas por cautela e a fim de evitar a interposição de embargos de declaração manifestamente protelatórios, considerando que o presente voto promove interpretação sistemática e teleológica das normas constitucionais e legais aplicáveis, dou por prequestionadas todas as disposições legais e constitucionais invocadas, ainda que não mencionadas expressamente.    

As partes ficam, desde já, advertidas de que os embargos de declaração, nos termos dos arts. 1.022 e 1.026 do CPC, somente são cabíveis nas hipóteses de obscuridade, contradição, omissão ou erro material, não se prestando à rediscussão do julgado, sob pena de imposição de multa não excedente a 2% sobre o valor atualizado da causa, que poderá ser elevada a até 10% em caso de reiteração.    

Ante o exposto, voto por dar provimento à apelação.



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Apelação Cível Nº 0011734-38.2014.4.01.3800/MG

PROCESSO ORIGINÁRIO: Nº 0011734-38.2014.4.01.3800/MG

RELATORA: Desembargadora Federal SIMONE DOS SANTOS LEMOS FERNANDES

EMENTA

DIREITO CONSTITUCIONAL, ADMINISTRATIVO E PROCESSUAL CIVIL. APELAÇÃO. HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS DE SUCUMBÊNCIA. ADVOGADOS PÚBLICOS FEDERAIS. CUMULAÇÃO COM SUBSÍDIO. CONSTITUCIONALIDADE. TITULARIDADE DA VERBA. LEI N. 13.327/2016. OBSERVÂNCIA DO TETO REMUNERATÓRIO CONSTITUCIONAL. AFASTAMENTO DA DECLARAÇÃO INCIDENTAL DE INCONSTITUCIONALIDADE. RECURSO PROVIDO.

I. CASO EM EXAME 

1. Apelação interposta pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes – DNIT contra sentença que, ao julgar improcedente ação de manutenção de posse e procedente pedido contraposto, declarou incidentalmente a inconstitucionalidade do art. 85, § 19, do CPC e, por arrastamento, dos arts. 27 a 36 da Lei n. 13.327/2016, determinando a destinação dos honorários de sucumbência à União, por meio do Tesouro Nacional, vedada sua transferência aos advogados públicos. O recurso busca a reforma da sentença exclusivamente quanto a esse capítulo, para afastar a declaração de inconstitucionalidade e reconhecer o direito dos advogados públicos federais à percepção da verba sucumbencial.

II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO 

2. Há duas questões em discussão: (i) definir se os advogados públicos federais podem perceber honorários advocatícios de sucumbência cumulativamente com o subsídio inerente ao exercício do cargo público; e (ii) estabelecer se os honorários de sucumbência fixados na sentença pertencem aos advogados públicos federais ou devem ser destinados à União, por meio do Tesouro Nacional.

III. RAZÕES DE DECIDIR 

3. O art. 85, § 19, do CPC e os arts. 27 a 36 da Lei n. 13.327/2016 asseguram aos advogados públicos federais, entre eles os Procuradores Federais, os honorários de sucumbência nas causas envolvendo a União, suas autarquias e fundações.

4. O STF reconhece a constitucionalidade da percepção de honorários sucumbenciais pelos advogados públicos, cumulativamente com o subsídio e observado o teto remuneratório, por se tratar de verba autônoma pertencente aos procuradores do ente público (ADI 4.941/AL, ADI 6.053/DF e Rcl 65.774 AgR). 

5. A orientação vinculante do STF afasta a declaração de inconstitucionalidade e a destinação dos honorários ao Tesouro Nacional.

6. Os honorários advocatícios de sucumbência fixados na sentença pertencem aos advogados públicos federais e devem ser destinados e distribuídos na forma da Lei n. 13.327/2016, observada, quanto à percepção individual, a incidência do teto remuneratório previsto no art. 37, XI, da Constituição Federal.

IV. DISPOSITIVO E TESE 

7. Recurso provido. 

Tese de julgamento:

1. Os honorários de sucumbência pertencem aos advogados públicos e podem ser percebidos cumulativamente com o subsídio, na forma da legislação de regência.

2. A soma dos honorários com as demais parcelas remuneratórias deve observar o teto previsto no art. 37, XI, da Constituição Federal.

Dispositivos relevantes citados: CF/1988, arts. 37, XI, 39, § 4º, e 102, § 2º; CPC, arts. 85, § 19, e 927, I; Lei n. 13.327/2016, arts. 27 a 36. 

Jurisprudência relevante citada: STF, ADI n. 4.941/AL, Rel. Min. Teori Zavascki, Rel. p/ acórdão Min. Luiz Fux, Tribunal Pleno, j. 14.08.2019, DJe 07.02.2020; STF, ADI n. 6.053/DF, Rel. Min. Marco Aurélio, Rel. p/ acórdão Min. Alexandre de Moraes, Tribunal Pleno, j. 22.06.2020, DJe 30.07.2020; STF, Rcl. n. 65.774 AgR, Rel. Min. Dias Toffoli, Segunda Turma, j. 11.06.2024, DJe 14.06.2024. 

ACÓRDÃO

Vistos e relatados estes autos em que são partes as acima indicadas, a Egrégia 4ª Turma do Tribunal Regional Federal da 6ª Região decidiu, por unanimidade, dar provimento à apelação, nos termos do voto da relatora, nos termos do relatório, votos e notas de julgamento que ficam fazendo parte integrante do presente julgado.

Belo Horizonte, 25 de setembro de 2026.



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Extrato de Ata
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EXTRATO DE ATA DA SESSÃO VIRTUAL DE 21/09/2026 A 25/09/2026

Apelação Cível Nº 0011734-38.2014.4.01.3800/MG

RELATORA: Desembargadora Federal SIMONE DOS SANTOS LEMOS FERNANDES

PRESIDENTE: Desembargadora Federal SIMONE DOS SANTOS LEMOS FERNANDES

PROCURADOR(A): JOSE JAIRO GOMES

Certifico que este processo foi incluído na Pauta da Sessão Virtual, realizada no período de 21/09/2026, às 00:00, a 25/09/2026, às 16:00, na sequência 79, disponibilizada no DE de 09/09/2026.

Certifico que a 4ª Turma, ao apreciar os autos do processo em epígrafe, proferiu a seguinte decisão:

A 4ª TURMA DECIDIU, POR UNANIMIDADE, DAR PROVIMENTO À APELAÇÃO, NOS TERMOS DO VOTO DA RELATORA.

RELATORA DO ACÓRDÃO: Desembargadora Federal SIMONE DOS SANTOS LEMOS FERNANDES

Votante: Desembargadora Federal SIMONE DOS SANTOS LEMOS FERNANDES

Votante: Juiz Federal GUSTAVO SORATTO ULIANO

Votante: Desembargador Federal ANDRE PRADO DE VASCONCELOS

ANDREA FERNANDA COSTA

Secretária



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