Poder Judiciário
TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL DA 6ª REGIÃO

Apelação Cível Nº 1012376-45.2019.4.01.9999/MG

RELATORA: Juíza Federal ANA CAROLINA CAMPOS AGUIAR

RELATÓRIO

A EXMA. SENHORA JUÍZA FEDERAL ANA CAROLINA CAMPOS AGUIAR

Trata-se de Apelação Cível interposta contra sentença que julgou improcedente o pedido de concessão de aposentadoria por idade híbrida, formulado em face do INSS.

A sentença indeferiu o benefício sob o fundamento de que a autora não logrou comprovar o exercício da atividade rural pelo período equivalente à carência exigida, tampouco apresentou início de prova material idôneo. Destacou, ainda, a existência de múltiplos vínculos urbanos em nome da autora, o que afastaria sua qualificação como segurada especial.

A parte autora, ora apelante, sustenta em suas razões recursais que faz jus ao benefício de aposentadoria por idade na modalidade híbrida, prevista no § 3º do art. 48 da Lei 8.213/91, admitindo-se a soma dos períodos de trabalho urbano e rural, mesmo que descontínuos, para fins de carência. Afirma que cumpriu o requisito etário e que apresentou início de prova material, corroborada por robusta prova testemunhal. Alega, ainda, que a sentença recorrida contraria o entendimento jurisprudencial consolidado sobre o tema, especialmente no âmbito deste Egrégio Tribunal Regional Federal da 1ª Região.

Por sua vez, em sede de contrarrazões, o INSS defende a manutenção da sentença, reiterando que a autora não apresentou documentos materiais suficientes para comprovar o exercício da atividade rural no período exigido, sendo inaplicável, no caso, a aposentadoria híbrida. Aduz que a prova testemunhal é ineficaz se desacompanhada de prova documental e que os vínculos urbanos constantes no CNIS desautorizam o enquadramento da autora como segurada especial.

É o relatório.

VOTO

Sentença não sujeita ao reexame necessário (art.496, I do Código de Processo Civil 2015).

Conheço do recurso interposto, por entender preenchidos os pressupostos de admissibilidade.

A aposentadoria por idade do segurado especial, que não se confunde com o trabalhador rural empregado, avulso ou contribuinte individual, foi mantida pela EC nº 103/2019 e reclama a comprovação da idade mínima de 55 anos, se mulher, ou 60 anos, se homem, bem como do trabalho campesino, desempenhado individualmente ou em regime de economia familiar, ainda que de forma descontínua, durante 180 meses imediatamente anteriores ao implemento do requisito etário ou da DER, salvo a regra de transição do art. 142, da Lei 8.213/91. 

No REsp nº 1.354.908 (Tema 642), o STJ firmou a tese de que “o segurado especial tem que estar laborando no campo quando completar a idade mínima para se aposentar por idade rural, momento em que poderá requerer seu benefício. Ressalvada a hipótese do direito adquirido, em que o segurado especial, embora não tenha requerido sua aposentadoria por idade rural, preenchera de forma concomitante, no passado, ambos os requisitos carência e idade”. Nos termos da tese fixada no Tema 301/TNU, “a condição de segurado especial é descaracterizada a partir do 1º dia do mês seguinte ao da extrapolação dos 120 dias de atividade remunerada no ano civil (Lei 8.213/91, art. 11, § 9º, III)”, o mesmo podendo ser inferido da ausência de qualquer atividade nesse mesmo período.  Entretanto, conforme tal precedente, uma vez comprovado o retorno ao trabalho de segurado especial, na forma do art. 55, §3º, da LBP, o requerente poderá valer-se dos períodos rurais anteriores e posteriores à ruptura do vínculo campesino para o cumprimento da carência, não se exigindo, portanto, o requisito da continuidade. 

O art. 55, §3º da Lei 8.213/91 exige um razoável início de prova material para a comprovação do tempo de serviço rural, sendo vedada a sua demonstração por meio de prova exclusivamente testemunhal (Súmula 149/STJ). Tal prova material há de ser contemporânea aos fatos sob prova (Súmula 34/TNU), não se impondo, contudo, que se cubra todo o período de carência (Súmula 14/TNU). Destaco, no ponto, que a extemporaneidade vedada se dirige aos documentos posteriores ao evento previdenciário a acobertar (idade, incapacidade, óbito, nascimento, reclusão), sendo aceitos aqueles elaborados antes do termo inicial da carência (Súmula 577/STJ). Os documentos em nome de um membro do núcleo familiar (art. 39 da IN 77/2015) aproveita ao demais (Tema 18/STJ e Súmula 06/TNU), vedada a sua utilização após a ocorrência de evento capaz de desenquadrar ou excluir o paradigma do grupo familiar (AgRg no REsp 947.379/SP).  Enquadram-se como início de prova material os documentos indicados nos artigos 47 e 54 da IN nº 77/2015 (art. 116 da IN nº 128/2022), desde que não extemporâneos; não rasurados; indiquem a data, local e assinatura do seu subscritor; que não tenham sofrido alteração posterior por mera declaração do interessado, como as certidões eleitorais extraídas em sítio eletrônico; confeccionados imediatamente antes da DER para o fim específico de instrução do processo previdenciário e que não configurem mera declaração de terceiros reduzida a termo (TRF1. AC 254260920144019199, e-DJF1 10/12/2014). Declarações sindicais não homologadas pelo INSS não configuram início de prova documental (EREsp 1140733/SP), sendo ainda assim inadmitidas após a Lei 13.846/2019, que as excluiu do rol do art. 106 da LBP.

Por sua vez, a aposentadoria por idade híbrida é devida ao trabalhador rural que, não atingindo os meses de contribuição necessários à carência do benefício pretendido no exercício exclusivo da atividade rural, satisfaça essa condição mediante contribuições sobre outra categoria de segurado. (Cf. art. 48, §3º, da Lei 8.213/91). É de se ressaltar que, em se tratando de mulheres, a idade de 60 anos outrora prevista foi alterada para 62 anos, observada a regra de transição do art. 18, da EC nº 103/2019 (60,5 anos após 01.01.20; 61 anos após 01.01.21; 61,5 anos após 01.01.22 e 62 anos após 01.01.23). Para os homens, exige-se a idade mínima de 65 anos.

Nos termos do art. 55, §2º da Lei 8.213/91, “o tempo de serviço do segurado trabalhador rural, anterior à data de início de vigência desta Lei, será computado independentemente do recolhimento das contribuições a ele correspondentes, exceto para efeito de carência, conforme dispuser o Regulamento”. Em respeito ao Tema 644/STJ, tal entendimento não se aplica ao empregado rural com registro em CTPS, para quem o tempo de labor anterior a 31.10.91 conta também como carência. O período de labor do segurado especial, posterior à Lei n. 8.213/91 (31.10.91 – anterioridade nonagesimal), só será computado se houver o recolhimento de contribuições facultativas, conforme preceitua a Súmula n. 272/STJ: “O trabalhador rural, na condição de segurado especial, sujeito à contribuição obrigatória sobre a produção rural comercializada, somente faz jus à aposentadoria por tempo de serviço, se recolher contribuições facultativas”.

No mesmo sentido, o Tema 1007 / STJ: “O tempo de serviço rural, ainda que remoto e descontínuo, anterior ao advento da Lei 8.213/1991, pode ser computado para fins da carência necessária à obtenção da aposentadoria híbrida por idade, ainda que não tenha sido efetivado o recolhimento das contribuições, nos termos do art. 48, § 3o. da Lei 8.213/1991, seja qual for a predominância do labor misto exercido no período de carência ou o tipo de trabalho exercido no momento do implemento do requisito etário ou do requerimento administrativo.”.

No julgamento do Tema 327, a TNU assim se posicionou: “Constitui início de prova material do exercício de atividade rural a documentação em nome do cônjuge ou companheiro que o qualifica como empregado rural para fins de concessão de benefício previdenciário na condição de segurado especial.” Portanto, os registros em CTPS de atividade rural exercida pelo marido, são válidos para comprovar a atividade rural da mulher, em regime de economia familiar.

Como já mencionado acima, nos termos do art. 48, §3º, da Lei nº 8.213/91, é admitida, para fins de carência, a soma de períodos de atividade urbana e rural, ainda que de forma descontínua, desde que atendido o requisito etário (60 anos para mulheres), para fins de concessão da aposentadoria por idade híbrida, introduzida pela Lei nº 11.718/2008, com vistas à proteção previdenciária dos trabalhadores que transitaram entre o meio rural e urbano.

Todavia, para a concessão do benefício, exige-se a comprovação do tempo de atividade rural por meio de início de prova material, a ser corroborada por prova testemunhal idônea, nos termos do art. 55, §3º, da Lei nº 8.213/91 e da Súmula 149 do STJ, a qual estabelece que:

“A prova exclusivamente testemunhal não basta à comprovação da atividade rurícola, para efeito da obtenção do benefício previdenciário”.

No presente caso, embora a autora tenha atingido o requisito etário na data do requerimento administrativo em 19/12/2016 (já contava 60 anos), não logrou comprovar o tempo de atividade rural em número de meses correspondente à carência legalmente exigida.

A prova documental colacionada aos autos (consistente em certidão de imóvel rural em nome do pai da autora, adquirido no ano de 1965 (Evento 1, outros 8) não comprova o exercício pessoal da atividade agrícola pela requerente. 

A prova testemunhal, conquanto uníssona em atestar que a autora exerceu atividades rurais, não se sobrepõe à ausência de prova documental mínima, o que inviabiliza o reconhecimento do direito invocado.

Assim sendo, por restar evidente que a apelante não faz jus ao benefício pleiteado, inexistem razões para reforma da sentença de piso, que deve ser mantida por seus próprios fundamentos, eis que o juízo de origem analisou corretamente os elementos dos autos e fundamentou sua decisão de forma escorreita, em consonância com a jurisprudência consolidada, inclusive no âmbito deste Tribunal.

Ônus sucumbenciais

Considerando-se que a sentença recorrida foi proferida sob a vigência do CPC/2015 e que ao presente recurso é negado provimento, em observância ao princípio da causalidade, impõe-se a majoração dos honorários advocatícios sucumbenciais em dois pontos percentuais, na forma do § 11 do art. 85, do Código de Processo Civil. Mantém-se suspensa a exigibilidade, em razão de litigar a autora sob o pálio da gratuidade judiciária.

INSS isento de custas.

Dispositivo

Ante o exposto, VOTO POR NEGAR PROVIMENTO à apelação.



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Apelação Cível Nº 1012376-45.2019.4.01.9999/MG

RELATORA: Juíza Federal ANA CAROLINA CAMPOS AGUIAR

EMENTA

DIREITO PREVIDENCIÁRIO. APELAÇÃO CÍVEL. APOSENTADORIA POR IDADE HÍBRIDA. NECESSIDADE DE INÍCIO DE PROVA MATERIAL DO LABOR RURAL. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DOCUMENTAL MÍNIMA. IMPROCEDÊNCIA DO PEDIDO MANTIDA. RECURSO DESPROVIDO.

I. CASO EM EXAME

  1. Apelação Cível interposta contra sentença que julgou improcedente o pedido de concessão de aposentadoria por idade híbrida, formulado em face do INSS. A sentença indeferiu o benefício ao fundamento de que a autora não comprovou o exercício da atividade rural pelo período correspondente à carência legalmente exigida, tampouco apresentou início de prova material idôneo. Destacou, ainda, a existência de vínculos empregatícios urbanos, os quais afastariam sua condição de segurada especial. A apelante, por sua vez, defende o direito ao benefício com base na possibilidade de contagem híbrida dos períodos rural e urbano, sustentando que cumpriu os requisitos legais e apresentou início de prova material corroborada por prova testemunhal.

II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO

  1. Há duas questões em discussão: (i) verificar se a autora faz jus à aposentadoria por idade híbrida mediante a soma dos períodos de labor rural e urbano, nos termos do art. 48, § 3º, da Lei 8.213/91; (ii) determinar se houve início de prova material suficiente para comprovar o efetivo exercício da atividade rural pelo tempo equivalente à carência exigida.

III. RAZÕES DE DECIDIR

  1. A aposentadoria por idade híbrida exige o cumprimento do requisito etário e o preenchimento da carência mediante a soma de períodos de trabalho urbano e rural, ainda que descontínuos, conforme previsto no art. 48, § 3º, da Lei 8.213/91.

  2. Para fins de comprovação da atividade rural, o art. 55, § 3º, da Lei 8.213/91 exige início de prova material contemporânea aos fatos alegados, corroborada por prova testemunhal, sendo vedada a demonstração exclusiva por testemunhos, conforme Súmula 149/STJ.

  3. A documentação apresentada (certidão de imóvel rural em nome do pai da autora) por si só não comprova o exercício pessoal da atividade agrícola.

  4. A prova testemunhal produzida, embora uníssona quanto à atividade rural, não supre a ausência de documentação mínima exigida por lei e pela jurisprudência consolidada.

  5. Ausente comprovação mínima do tempo de labor rural, inviável o cômputo híbrido para fins de carência, restando incabível a concessão da aposentadoria por idade híbrida.

IV. DISPOSITIVO E TESE

Recurso desprovido.

Tese de julgamento:

  1. A aposentadoria por idade híbrida exige a comprovação do tempo de atividade rural mediante início de prova material contemporânea aos fatos alegados, corroborada por prova testemunhal, sendo inviável a demonstração exclusivamente testemunhal.

  2. A existência de vínculos urbanos registrados no CNIS afasta a presunção de exercício de atividade rural em regime de economia familiar, quando não acompanhada de prova documental idônea.

  3. A ausência de início de prova material impede o reconhecimento do tempo de labor rural necessário à carência, inviabilizando a concessão da aposentadoria híbrida.


Dispositivos relevantes citados: CF/1988, art. 201, § 7º; Lei 8.213/91, arts. 11, § 9º, III; 48, § 3º; 55, §§ 2º e 3º; CPC/2015, arts. 85, § 11, e 496, I.

Jurisprudência relevante citada: STJ, REsp 1.354.908/SP (Tema 642); STJ, EREsp 1.140.733/SP; STJ, Súmulas 149 e 272; STJ, Súmula 577; TNU, Temas 301, 327 e 1007; TNU, Súmulas 6, 14 e 34; TRF1, AC 254260920144019199, e-DJF1 10/12/2014.

ACÓRDÃO

Vistos e relatados estes autos em que são partes as acima indicadas, a Egrégia 1ª Turma Suplementar do Tribunal Regional Federal da 6ª Região decidiu, por unanimidade, NEGAR PROVIMENTO à apelação, nos termos do voto da relatora, nos termos do relatório, votos e notas de julgamento que ficam fazendo parte integrante do presente julgado.

Belo Horizonte, 17 de novembro de 2025.



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Extrato de Ata
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Tribunal Regional Federal da 6ª Região

EXTRATO DE ATA DA SESSÃO VIRTUAL DE 10/11/2025 A 17/11/2025

Apelação Cível Nº 1012376-45.2019.4.01.9999/MG

RELATORA: Juíza Federal ANA CAROLINA CAMPOS AGUIAR

PRESIDENTE: Desembargador Federal RUBENS ROLLO D OLIVEIRA

PROCURADOR(A): JAQUELINE ANA BUFFON

Certifico que este processo foi incluído na Pauta da Sessão Virtual, realizada no período de 10/11/2025, às 00:00, a 17/11/2025, às 16:00, na sequência 54, disponibilizada no DE de 28/10/2025.

Certifico que a 1ª Turma Suplementar, ao apreciar os autos do processo em epígrafe, proferiu a seguinte decisão:

A 1ª TURMA SUPLEMENTAR DECIDIU, POR UNANIMIDADE, NEGAR PROVIMENTO À APELAÇÃO, NOS TERMOS DO VOTO DA RELATORA.

RELATORA DO ACÓRDÃO: Juíza Federal ANA CAROLINA CAMPOS AGUIAR

Votante: Juíza Federal ANA CAROLINA CAMPOS AGUIAR

Votante: Desembargador Federal RUBENS ROLLO D OLIVEIRA

Votante: Juiz Federal GUILHERME BACELAR PATRICIO DE ASSIS

JACQUELINE GUIRALDELI BEDRAN

Secretária



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